Entrevista | Widowspeak: “Inspirei-me nos pequenos momentos íntimos da vida.”

Vasco Reis

A dupla norte-americana Widowspeak, composta por Molly Hamilton e Robert Earl Thoma, lançou no mês passado o seu sétimo álbum de estúdio, “Roses”, um disco focado nos aspetos mais mundanos e na vida quotidiana deste casal de músicos. Molly Hamilton, vocalista e guitarrista, fala-nos sobre o processo de criação do álbum e a forma como a vida quotidiana e a estabilidade pessoal moldaram a escrita das canções em “Roses.”

Entrevista conduzida por Vasco Reis.

“Roses” acabou por dar o nome ao álbum. Em que momento perceberam que essa canção representava o disco como um todo?

Na verdade, foi a primeira canção que escrevi ao piano. De certa forma, representa o facto de o processo criativo ter sido um pouco diferente desta vez. Pareceu-me um bom título porque era puro e simples, mas as rosas simbolizam tantas coisas: o amor verdadeiro, um gesto excessivamente romântico e, ao mesmo tempo, carregam significados diferentes através da linguagem das flores. Uma rosa é quase um cliché, mas continua a poder ter nuances, por isso pareceu-me um nome divertido para dar ao disco.

Comparado com o vosso álbum anterior, Roses parece nascer de um lugar menos conceptual. Como começou este disco a ganhar forma?

O disco começou a surgir a partir da vida quotidiana, ao entrar no ritmo de ir trabalhar, passear pela cidade e sentir-me confortável por não estarmos constantemente ativos enquanto banda. Inspirei-me nos pequenos momentos íntimos da vida. Não estava propriamente a escrever sobre grandes conceitos ou grandes emoções no sentido de precisar de uma catarse. Eu trabalho num restaurante quando não estou em digressão e o Rob trabalha como carpinteiro, por isso ambos acabamos por cair nestas rotinas do dia a dia que, na verdade, tiram pressão ao processo criativo. Chegas a casa do trabalho e a tua mente criativa continua a funcionar.

Gravaram o álbum num estúdio na ilha grega de Hydra. Onde sentes a influência desse ambiente neste projeto?

A ilha, no verão, é bastante movimentada. Nunca lá estive nessa altura, mas, no inverno, é habitada sobretudo pelos residentes permanentes e tem um ambiente muito tranquilo. Foi um sítio muito sereno para trabalhar na música, porque podíamos descer até à vila para tomar o pequeno-almoço ou jantar no fim do dia e passar o resto do tempo a gravar na sala principal desta antiga mansão. Havia uma sensação de paz muito grande e acho que o disco acabou por se desenvolver de forma muito natural por causa disso.

O primeiro single, “If You Change”, foi inspirado por uma cassete VHS da Meryl Streep a ler The Velveteen Rabbit. Que outras influências do cinema, da literatura ou de outros meios encontraram caminho até este álbum?

Acabamos sempre por regressar às mesmas influências. Diria os filmes do Rohmer dos anos 90, sobretudo os filmes de verão. Foram importantes pela forma como as personagens falam sobre o amor, vivem os seus dias e equilibram conversas filosóficas com pequenas trocas do quotidiano. Também os filmes do Wong Kar Wai. Quando começámos a trabalhar neste disco, eu e o Rob íamos muitas vezes a salas de cinema independentes sempre que tínhamos tempo livre, e estavam a passar ciclos dedicados ao Rohmer e ao Wong Kar Wai. Isso acabou, sem dúvida, por se refletir no álbum.

À medida que foste crescendo, tornou-se mais natural encontrar significado nesses pequenos momentos e transformá-los em canções?

Sem dúvida. Quando era mais nova e estávamos a começar a banda, sentia-me muito mais consciente de mim própria quando escrevia canções e achava que elas tinham de transmitir algo profundamente importante. Ou esperava até estar a sentir uma emoção muito intensa para escrever, ou começava já com um objetivo definido, com uma história que queria contar. Há canções antigas dos Widowspeak de que continuo muito orgulhosa porque nasceram desse impulso mais juvenil, mas também colocava muita pressão sobre mim própria para dizer algo realmente importante em cada música.

Houve alguma canção do álbum que te tenha surpreendido durante o processo de escrita por ter surgido de uma forma diferente daquela que costuma ser habitual para ti?

Acho que “No Driver” começou como uma canção ao piano, mas, quando entrámos em estúdio, transformou-se neste hino de guitarras de uma forma muito interessante. Ficou exatamente como eu imaginava que deveria soar. A letra acabou por se transformar numa canção sobre conduzir durante a noite, que foi precisamente a imagem que demos ao videoclipe. Foi engraçado porque começou como uma peça lenta ao piano e acabou por crescer até se tornar algo com uma escalada muito interessante.

Já disseste que parte deste álbum foi escrita para uma versão mais jovem de ti própria. Se hoje lhe pudesses mostrar este disco, o que gostarias que ela ouvisse nele?

Acho que a minha versão mais nova ia gostar muito deste disco. Em termos sonoros, toca nas mesmas influências que sempre tive, mas também em algumas novas que a minha versão de 22 anos teria adorado. Quando disse que “No Driver” foi escrita, em parte, para essa versão mais jovem de mim, era porque sinto que hoje tenho uma perspetiva muito mais focada, padrões pessoais mais claros e uma ideia mais definida de como quero viver a minha vida. Os meus anos mais turbulentos deixaram-me um pouco dispersa, cansada e afastada daquilo que realmente queria fazer.

Os videoclipes deste álbum parecem mostrar um lado mais leve e descontraído da banda. Como vês a relação entre essa linguagem visual e a atmosfera mais melancólica das canções?

Os visuais são uma forma de imaginar as canções a partir de outro ângulo. Tinha esta ideia de um conjunto de personagens, uma espécie de Hollywood decadente, com atores ocasionais, mas queria que tudo tivesse um tom mais leve porque as canções também têm essa leveza, mesmo quando abordam temas mais sérios. Este álbum, em particular, tem algum sentido de humor. Existem emoções intensas, claro, mas também há esse lado mais banal do quotidiano, esses pequenos detalhes da vida que nos fazem sair da sensação de peso.

Ao longo deste álbum falas muito sobre amor e relações. Depois de tantos anos juntos e de tantas canções sobre esse tema, o que sentes que mudou na forma como escreves sobre o amor em Roses, em comparação com os discos anteriores?

Enquanto escrevia este disco, eu e o Rob casámo-nos e eu estava grávida durante as gravações. Do ponto de vista pessoal, muita coisa na minha vida parece agora mais estável, sobretudo quando comparo com a incerteza dos primeiros tempos de uma relação. Muitas das emoções mais intensas acontecem no início de um relacionamento. Depois de 14 anos juntos, casados e com um bebé, há muitas coisas que hoje sinto como certezas. Isso tirou-me a pressão de escrever sempre a partir de um lugar emocional tão intenso. Nos discos anteriores, recorria muitas vezes ao meu passado para recuperar essas grandes emoções, porque achava que uma canção tinha de captar um momento de catarse. Este disco afasta-se bastante dessa ideia e olha para tudo de uma perspetiva muito mais ampla.

* fotografia de Michael Stasiak

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