Butthole Surfers – After The Astronaut (2026)

Francisco Pereira

Crítica a "After The Astronaut", o álbum perdido dos Butthole Surfers finalmente editado. Um manifesto psicadélico e industrial que desafiou a indústria.

Os Butthole Surfers estão longe de ser um nome consensual ou familiar para a maioria das pessoas. Ainda assim, os texanos cravaram as suas garras na cultura popular com o icónico êxito “Pepper”, do álbum Electriclarryland (1996), e influenciaram o panorama alternativo de forma profunda, servindo de inspiração para bandas tão diversas como Nirvana, Flaming Lips ou Jane’s Addiction. Debaixo do olho da Capitol Records após esse sucesso comercial, a editora tentou empurrá-los para uma trajetória mais acessível, mas as exigências corporativas nunca ligaram bem com a ética nascida na cena hardcore dos anos 80.

A resposta da banda a essa pressão do meio do grunge foi puramente reacionária. O álbum resultante, After The Astronaut, acabou por ser uma tremenda conquista criativa para o grupo, mas um passo em falso na perspetiva dos executivos, o que levou a editora a arquivar o projeto. Embora os temas tenham sido mais tarde reciclados no álbum Weird Revolution (2001), o trio texano, composto por Gibby Haynes, Paul Leary e King Coffey, vê finalmente, três décadas depois, as misturas originais serem editadas através da Sunset Blvd.

O arranque faz-se com um monólogo delirante de Haynes que evoca a paixão de um pregador batista do sul profundo. Todo o trabalho está mergulhado num psicadelismo vanguardista que continua atualíssimo com grooves eletrónicos que se fixam no ouvido. O álbum equilibra-se entre a eletrónica e o peso. Se as camadas rítmicas e as batidas piscam o olho à sofisticação do trip-hop da altura, as guitarras disparam com uma agressividade que deixa muito grupo de metal contemporâneo a um canto.

“Intelligent Guy” soa a uma banda industrial a tentar criar um tema para as rádios sem qualquer pretensão comercial, enquanto “Venus” e “Imbuya” mostram-nos cadências reveladoramente sensuais. Em contrapartida, “I Don’t Have A Problem” constrói drama com distorções massivas e efeitos de voz misteriosos. O grande trunfo pop surge em “Jet Fighter”, um hino antiguerra intemporal e tão catchy que, se a editora tivesse acreditado no potencial do grupo nos anos 90, poderia perfeitamente ter repetido o sucesso de “Pepper”.

After The Astronaut é um tesouro de criatividade maníaca que merece finalmente ser apreciado na sua forma mais pura. E quiçá, dar aos Surfers um maior reconhecimento, mesmo que tardio.

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