Ontem assistimos ao verdadeiro contraste escocês. Dias depois de ter terminado o Campeonato do Mundo de Futebol, em que a Escócia participou, subiram ao palco do Coliseu dos Recreios, os Belle & Sebastian. E se no torneio de futebol estiveram presentes os escoceses mais animados, ébrios, simpáticos mas desregulados, ontem, em Lisboa, vimos outro tipo de escoceses: reservados, regulados e introvertidos mas igualmente simpáticos.
Há então noites em que Lisboa se transforma no cenário perfeito para a melancolia festiva, e ontem à noite, no Coliseu dos Recreios, viveu-se um desses momentos raros.
Os Belle & Sebastian regressaram a Portugal para celebrar um marco incontornável: os 25 anos (agora já a ultrapassar as bodas de prata) de If You’re Feeling Sinister, o álbum seminal de 1996 que redefiniu o indie pop global. A relação dos escoceses com o público português sempre foi de enorme afeto, mas a atmosfera no Coliseu tinha o peso especial da nostalgia partilhada e de uma devoção intacta.
A banda não facilitou nas emoções e abriu logo a noite tocando, na íntegra e por ordem, a totalidade de If You’re Feeling Sinister. Ouvir “The Stars of Track And Field” a romper pela sala estabeleceu de imediato o tom da noite.
Seguiram-se as crónicas quotidianas e brilhantes de Stuart Murdoch e companhia: a delicadeza de “Seeing Other People”, o ritmo contagiante de “Me And The Major” e a cinefilia terna de “Like Dylan In The Movies”.
Cada faixa do disco de 1996 soou como uma cápsula do tempo reencontrada. “The Fox In The Snow” e a dormente “Get Me Away From Here I’m Dying” puxaram pelos coros da plateia, culminando na faixa-título “If You’re Feeling Sinister” e na narrativa vertiginosa de “Judy And The Dream of Horses”, que encerrou a primeira parte do concerto com uma vénia à obra-prima do grupo.
Terminada a viagem ao álbum de 1996, o concerto transformou-se numa celebração generosa do restante catálogo da banda, viajando por diferentes eras da sua discografia.
Surgiram pérolas do EP de estreia como “Dog On Wheels” (num belo medley com “I Fought In A War”, de Fold Your Hands Child, You’re Holding the Chains), assim como a energia contagiante de “I’m A Cuckoo” (retirada de Dear Catastrophe Waitress). Houve ainda espaço para a melancolia elegante de “Seymour Stein” (The Boy With The Arab Strap) e para a ternura colaborativa de “Little Lou, Ugly Jack, Prophet John” (Write About Love).
O pico de energia da noite deu-se com a eufórica “The Boy With The Arab Strap”, que transformou o Coliseu numa verdadeira celebração coletiva, com toda a sala a cantar em uníssono e a demonstrar a cumplicidade única entre a banda e o público português.
A despedida, em tom de celebração absoluta, selou uma noite memorável onde a história da banda e o carinho de Portugal se voltaram a cruzar no momento certo.
Alinhamento:
The Stars of Track And Field
+ Seeing Other People
+ Me And The Major
Like Dylan In The Movies
The Fox In The Snow
Get Me Away From Here I’m Dying
If You’re Feeling Sinister
Mayfly
The Boy Done Wrong Again
Judy And The Dream of Horses
I Fought In A War/Dog On Wheels
I’m A Cuckoo
Seymour Stein
Piazza/If She Wants Me/Summer Wasting
Little Lou, Ugly Jack, Prophet John
The Boy With The Arab Strap
I Want The World To Stop/ASD





























