Los Angeles nunca teve falta de hotéis com histórias lendárias de excessos. O Chateau Marmont viu Jim Morrison saltar de uma varanda; o Le Parc inspirou os Blur; e o mítico Continental Hyatt House (eternizado como “Riot House”) serviu de palco às loucuras dos Led Zeppelin. Contudo, há um santuário em West Hollywood que mantém uma aura quase mítica de exclusividade, refúgio e libertinagem: o Sunset Marquis.
A história deste epicentro da cultura musical é agora contada em detalhe no novo documentário If These Walls Could Rock, realizado por Tyler Measom e Craig A. Williams. O filme resulta de um olhar profundo e sem filtros sobre as últimas cinco décadas do hotel, reunindo testemunhos de figuras como Bruce Springsteen, Ringo Starr, Dave Grohl, Slash, Simon Le Bon, Roger Daltrey, Billy Gibbons, Cyndi Lauper e Sheryl Crow.
Entre os momentos mais marcantes da produção está uma rara aparição de Morrissey. O músico britânico surge entrevistado de pijama num cenário cuidadosamente esteticizado, partilhando a sua ligação de afeto e lealdade ao espaço, um refúgio onde até um dos mordomos do hotel costumava confecionar tartes vegans em casa para lhe levar pessoalmente ao quarto.

Perante a escassez de registos fotográficos ou de vídeo das festas mais privadas (uma consequência direta da política rigorosa do hotel que proibia a entrada de câmaras para proteger a privacidade dos hóspedes), os realizadores recorreram a abordagens criativas. Recorrendo ao trabalho de sete animadores diferentes, o documentário ilustra episódios surreais contados na primeira pessoa.
Entre as sequências animadas destacam-se, por exemplo, Iggy Pop a nadar em círculos na piscina entre duas admiradores, sob a narração do músico Michael Des Barres; Steven Van Zandt a recordar o momento em que Jimmy Iovine apresentou a Neil Young e Bruce Springsteen as gravações iniciais de Born to Run, com o “Boss” a atirar os acetatos para a piscina por insatisfação com o som; Chris Robinson a descrever Keith Richards a caminhar junto à piscina de fato de banho, equilibrando um maço de tabaco e uma faca na cintura enquanto segurava uma piña colada e uma cerveja.
Para além do mundo da música, o Sunset Marquis funcionou durante anos como ponto de encontro para a elite de Hollywood. O documentário resgata imagens de arquivo dos anos 90 com presenças frequentes de figuras como Brad Pitt, Angelina Jolie, Nicolas Cage, George Clooney e Ben Affleck no histórico bar do hotel.
Apesar das histórias de excessos e da narrativa colorida, o cerne emocional do filme reside na relação entre George Rosenthal (o fundador original do espaço) e o seu filho, Mark Rosenthal, atual presidente e gestor do hotel. O documentário não esconde as fragilidades da gestão familiar nem as fases financeiras mais críticas do empreendimento.
“O hotel nasceu na mesma altura que o rock ‘n’ roll e passou exatamente pela mesma evolução: dos anos 60 vibrantes para os anos 70 desregrados, entrando no tom festivo dos anos 80 e caindo na ressaca dos anos 90. Teve de se reinventar para sobreviver.” — Tyler Measom, co-realizador de If These Walls Could Rock
Hoje, o ecossistema do Sunset Marquis reflete a própria transformação da indústria musical. A imagem de televisores a serem arremessados pelas janelas deu lugar a estadias familiares, sumos naturais no minibar e sessões de spa. O hotel conseguiu preservar a sua herança cultural enquanto se adaptava às exigências de uma nova era, mantendo-se como um dos refúgios mais icónicos da história de Los Angeles.












