Os Birds Are Indie, histórico trio de Coimbra composto por Ricardo Jerónimo, Joana Corker e Henrique Toscano, contam já com dezasseis anos de um percurso orgânico e independente na pop alternativa portuguesa. Ao longo da sua carreira, o grupo tem sabido crescer com maturidade, construindo um núcleo criativo muito próprio onde o formato da canção é sagrado. O seu percurso ganhou recentemente um novo e marcante capítulo com o lançamento de The Stone of Madness, o seu sétimo álbum de estúdio, gravado inteiramente no ambiente descontraído do estúdio caseiro da banda.
Este novo trabalho funciona como um irmão gémeo e, simultaneamente, um contraponto ao anterior Ones & Zeros. Se o registo de 2023 olhava para o exterior e para as fraturas do mundo, The Stone of Madness, cujo título se inspira num quadro de Bosch sobre a extração da pedra da loucura, desloca o foco para um território mais íntimo e introspetivo. Entre a pop eletrónica de “Not Today” e o rock vigoroso de “I Could Laugh”, o disco utiliza a criação artística como uma ferramenta terapêutica para compreender os conflitos e as tensões internas da nossa existência.
Celebrando esta fase de reflexão e maturidade, os Birds Are Indie aceitaram o convite do Mente Cultural para partilhar as suas grandes referências. Num exclusivo para o site, o trio selecionou os 10 álbuns que compõem o mapa fundamental das suas influências ao longo dos anos. É uma oportunidade única para mergulhar no universo sonoro e conceptual que alimenta uma das bandas mais resilientes do panorama indie nacional.
1. Tropical Fuck Storm
Fairyland Codex (2025)
escolha de Ricardo Jerónimo
Conheci esta banda há relativamente pouco tempo, numa das sessões ao vivo da rádio americana KEXP. São um quarteto australiano que mistura rock, psicadelismo e alguma freakalhice, um pouco na onda de algumas coisas dos amigos King Gizzard & the Lizard Wizard, com os quais até têm um EP em conjunto. Da sua discografia, o meu disco preferido é este Fairyland Codex, que tem também alguns momentos mais calmos, com uma certa textura melancólica, que se equilibra muito bem com as descargas eléctricas que os caracterizam.
2. Andy Shauf
The Neon Skyline (2020)
escolha de Ricardo Jerónimo
Gosto bastante deste disco, especialmente porque as letras dos 11 temas, no seu conjunto, vão contando uma história que se passa numa noite, tendo como cenário quase sempre um bar chamado “The Neon Skyline” e em torno do mesmo grupo de pessoas (nas quais se inclui o ‘narrador’). Essa ideia de narrativa em formato musical e de sermos transportados para a vida daquelas pessoas torna-se, pelo menos para mim, numa experiência auditiva muito cinematográfica e imersiva, à qual volto recorrentemente. Tudo isto, dentro de canções folk-pop com a voz e os arranjos muito particulares do canadiano Andy Shauf.
3. Duques do Precariado
Encarnação (2026)
escolha de Ricardo Jerónimo
Os Duques do Precariado são das bandas que mais me surpreenderam, pela positiva, nos últimos anos. Ressoam neles algumas influências que acho que consigo identificar, mas isso não é pecado nenhum, porque o resultado é algo muito deles (assim espero que também aconteça com os Birds Are Indie). A instrumentação, em disco, busca o acústico e o orgânico. Ao vivo, ganha corpo, com a percussão e com mais alguns toques eléctricos ou digitais. E é na busca de um equilíbrio entre compreender o que realmente nos torna humanos e o que nos afasta da humanidade que, parece-me, emergem as belíssimas palavras que conseguem o difícil feito de serem, simultaneamente, poesia e letras de canções.
4. Belle and Sebastian
If You're Feeling Sinister (1996)
escolha de Joana Corker
Há quem diga que 1996 é um ano em que todos os astros se alinharam no mundo da música e saíram álbuns históricos, principalmente nas terras britânicas. A Britpop estava ao rubro com os Blur, Oasis, Pulp, Suede, Bluetones, The Verve, Elastica, Echobelly, etc… Mas foi na Escócia que surgiu um grupo que não se regia pelo turbilhão caótico que o movimento da Britpop estava a criar e seguiu pelo caminho de uma música indie pop mais suave, bem estruturada, com um conjunto de instrumentos que não estavam no mainstream, longe do imediatismo e do estrelato. Para uma rapariga de 16 anos, extremamente tímida e que não encaixava em nenhum estrato social dos adolescentes dos anos 90 (os betos, os punks, os skaters, etc.), recebi de braços e orelhas bem abertas os primeiros álbuns dos Belle and Sebastian, dos quais destaco o If You’re Feeling Sinister, e juntei-me à legião de fãs de t-shirts às riscas que apregoavam os fundamentos da música indie.
5. Ultimate Painting
Ultimate Painting (2014)
escolha de Joana Corker
Curiosamente, descobri algumas bandas através da rádio e guardo memória do momento exacto de quando isso aconteceu. Lembro-me de quando ouvi pela primeira vez a “Smells Like Teen Spirit”, dos Nirvana, na rádio de uma mercearia onde estava a fazer compras; a “Take Me Out”, dos Franz Ferdinand, no auto-rádio do meu Volkswagen Polo sintonizado no RUC’n’Roll da Rádio Universidade de Coimbra; e a música “Ultimate Painting”, do álbum Ultimate Painting da banda Ultimate Painting (ufa!), que passou no BBC Radio 6 Music enquanto estava a trabalhar num gabinete de design em Aveiro. A influência dos Velvet Underground é inegável, mas o equilíbrio perfeito das vozes e guitarras de Jack Cooper e James Hoare é algo que é raro nos dias de hoje e que ficou cravado nos meus ouvidos. Um álbum que gosto de revisitar quando necessito de alguma harmonia e beleza sonora.
6. Bodega
Endless Scroll (2018)
escolha de Joana Corker
Os Bodega são uma banda nova-iorquina que prega a filosofia perdida do art-punk rock, num mundo engolido num capitalismo desenfreado a caminhar para uma distopia digital. As músicas são acutilantemente diretas, cheias de ironia, com uma secção rítmica com a qual me identifico enquanto “baterista”. Tal como no Birds Are Indie, a bateria dos Bodega é tocada em pé e também tem apenas um prato, uma tarola e dois timbalões (com a excepção do prato de choque que é tocado pela vocalista Nikki).
7. Beck
Sea Change (2002)
escolha de Henrique Toscano
Sea Change de Beck é um momento raro em que um artista larga a ironia e encara o vazio de frente, sem filtros, a esconder a fragilidade. Cada canção soa como se tivesse sido gravada às três da manhã, num quarto meio escuro. Há aqui uma honestidade desconfortável, quase clínica, que faz com que as canções soem menos a música e mais a confissão.
8. The Gun Club
Fire of Love (1981)
escolha de Henrique Toscano
Jeffrey Lee Pierce canta como quem está à beira de desmoronar, misturando desejo, violência e redenção numa voz que parece sempre prestes a rasgar-se. Há aqui uma energia crua e primitiva, onde o rockabilly, o delta blues e o punk se atropelam, criando algo sujo, febril e estranhamente hipnótico. No fim, o disco soa menos a uma coleção de canções e mais a um ritual caótico, como se tivéssemos sobrevivido a algo que nem percebemos bem o que foi.
9. Interpol
Turn On The Bright Lights (2002)
escolha de Henrique Toscano
Em Turn On the Bright Lights, até os momentos mais intensos soam contidos. Faixas como “NYC” arrastam-se com uma lentidão quase narcótica. A secção rítmica mantém tudo firme e impassível. No fim, o disco não explode nem resolve. Apenas permanece, frio e impenetrável. Ainda assim, no meio dessa frieza toda, o álbum consegue ser estranhamente viciante.
10. Pixies
Surfer Rosa (1988)
escolha de Henrique Toscano
Surfer Rosa dos Pixies soa como se alguém tivesse decidido que a lógica era opcional e o caos uma ferramenta legítima de composição. Black Francis alterna entre sussurros e gritos como quem muda de personalidade a meio da frase, fazendo aqui todo o sentido. A estética do disco, produzido por Steve Albini, recusa qualquer tipo de polimento. Os Pixies criaram com este disco um manual acidental de dinâmica extrema composto principalmente por silêncio, ruído e tensão.
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