Beatriz Pessoa apresenta hoje Muito Mais, um disco marcado por mudanças pessoais e profissionais. Da maternidade à nova editora, a cantora fala sobre o processo de criação de um álbum que a levou a reconciliar-se consigo mesma. Entrevista de Vasco Reis.
Como surgiu o nome Muito Mais e o que é que ele representa dentro do universo do disco?
Queria que o nome do disco representasse a ideia de ser um trabalho que incorpora “Muito Mais” de mim enquanto artista, compositora e cantora. Que espelhasse melhor todas as minhas influências e referências e que desse a sensação de uma construção para algo maior e de certa forma poderoso.
A representação estética do álbum também era muito importante e então o nome teria que ser algo que se encaixasse bem com a ideia do design e das “formas” que tinha idealizado. O “Muito Mais” acabou por surgir num brainstorming entre amigos.
Entre o “Muito Mais” e o Prazer Prazer”, foste mãe. Sentes que a maternidade se refletiu na forma como escreveste e pensaste este disco?
Claro. Acho que se reflectiu em tudo o que sou eu. Trouxe-me mais confiança, perspectiva e uma felicidade sempre “garantida” o que ajuda a gerir expectativas nos “entre-discos” e processos criativos.
Entretanto também mudaste de editora para a Cuca Monga. O que é que essa mudança trouxe de diferente ao processo deste álbum?
Tem sido uma colaboração muito feliz e cheia. Sinto que faço parte de uma equipa e o trabalho com eles é muito fluído. Acho que é essencial trabalharmos com pessoas que acreditem na nossa música e que ainda tenham entusiasmo não só pelo meio mas por uma possível descoberta de novos caminhos dentro do mesmo e sinto que na Cuca Monga há muito espaço para o sonho e valências para o concreto.
Um dos primeiros singles, “Pó de Palco”, nasceu de uma desilusão com o meio musical. Sentes que este disco te ajudou a reconciliar com o meio?
Completamente. Mas na verdade foi uma reconciliação com as minhas próprias metas e expectativas. Aprendi a valorizar mais o processo de criação e concepção e a fazê-lo de uma forma onde me desprendo dos preconceitos e dos rótulos. Fui tudo o que queria ser e cantar neste disco e como me orgulho tanto do trabalho final acabo por estar mais “protegida” de possíveis feedbacks negativos ou simplesmente da falta deles.
Descreveste o álbum como um “caos” no bom sentido da palavra, as várias colaborações com outros artistas ajudaram a construir esse caos?
Espero que sim! Adorei todas as colaborações e foram pensadas ao detalhe. Este caos positivo é também feito das ramificações das minhas influências e trabalhar com amigos e colegas que tanto admiro fez parte disso.
Desde os feats, ás participações especiais de músicos que admiro, cada momento trouxe magia ao disco.
Este disco tem várias referências a sonoridades de outras décadas. Que artistas ou influências estiveram mais presentes durante a criação do álbum?
Ufa foram mesmo muitos, mas deixo aqui os mais óbvios e mais “vocais” e líricos assim numa primeira abordagem: Mina, Rita Lee, Caroline Polachek, Nat King Cole, La Lupe, Jacques Brel, Doja Cat, Kate Bush, Paganini, Juana Molina, David Byrne.
Investiste bastante nos videoclipes ao longo deste álbum. Numa altura em que parecem ter menos peso, que importância continuam a ter para ti os videoclipes na música?
Adoro cinema e fazer música sempre teve um lado muito visual para mim. Cada canção acaba por ter o seu próprio universo onde também me divirto muito a idealizar personagens e possíveis performances. Tenho a sorte de ter como família dois realizadores incríveis que entendem as minhas referências, completam-nas e têm a capacidade de lhes dar vida com orçamentos altamente precários e produções sempre á base do “desenrasca”. E apesar da arte dos videoclipes estar numa fase mais desaparecida acredito que voltará em força, porque as modas são cíclicas e os amantes da música serão sempre cúmplices do visual.
Das músicas novas, qual é aquela que tens mais vontade de levar ao palco e porquê?
Cada semana que passa tenho uma opinião diferente sobre qual a “preferida”. Acho que à data desta entrevista a minha preferida de cantar é o “Não Não não” e estou muito entusiasmada para ouvir/ver o público cantar comigo um refrão cheio de “Nãos”, acho que tem potencial para ser transformador.
Tens descrito o “Muito Mais” como o disco mais próximo de quem tu és, que retrato da Beatriz Pessoa encontramos nestas canções?
É sempre difícil descrevermo-nos a nós próprios mas, diria, que podem encontrar um lado cómico-trágico que acaba sempre por encher mais o copo com esperança. Espero que encontrem uma Beatriz mais livre, possivelmente algo dramática e sempre rodeada de refrães dançantes e gente para os dançar.
Recorda aqui: 11 álbuns: As escolhas de Beatriz Pessoa
* fotografia de Maria Biker










