Os Unsafe Space Garden são um dos coletivos mais refrescantes e imprevisíveis da música portuguesa atual. Vindos de Guimarães, este sexteto tem construído um percurso marcado pela audácia criativa, onde o rock psicadélico se cruza com o teatro, o humor e uma honestidade emocional desarmante. Desde o primeiro EP Bubble Burst, em 2019, que a banda se recusa a habitar categorias estanques, preferindo cultivar um jardim sonoro onde o caos e a cor coexistem de forma harmoniosa.
As suas atuações ao vivo são frequentemente descritas como rituais de libertação, onde a plateia é convidada a deixar cair as máscaras da vida adulta. Esta energia catártica, aliada a uma sofisticação instrumental técnica, permitiu-lhes saltar das salas nacionais para palcos internacionais de referência, como o festival The Great Escape, no Reino Unido.
Em 2026, os Unsafe Space Garden atingiram um novo patamar de maturidade com o lançamento de O Melhor e o Pior da Música Biológica. Editado em março, este quarto longa-duração marca a assunção plena da língua portuguesa como matéria central das suas composições. Descrito pela banda como um “tratado sobre a existência humana”, o disco explora a dualidade entre o “furacão e o curativo”.
Num convite exclusivo do Mente Cultural, a banda despiu-se das suas próprias camadas para revelar os 12 álbuns que servem de bússola ao seu universo.
1. Alice Coltrane
Divine Songs (1987)
Trouxe-nos muita paz e consolo em alturas complicadas. Há qualquer coisa de inigualável neste disco que parece que a única reação à altura que se pode ter é o silêncio.
2. Fiona Apple
When The Pawn (1999)
O Nuno descobriu a Fiona Apple em 2012 e ficou completamente vidrado. Na altura, vivia em Paris e ia todos os dias para o trabalho a ouvir este disco, que impulsionou a vontade de continuar a tentar ser músico e de escrever canções. Podia pôr este ou qualquer um dos que vieram a seguir. Depois acabou também por infectar a Alexandra. A maneira como ela escreve letras, a forma como canta e as performances que dá, são duma honestidade inquestionável. Ah! O Nuno viu-a sem querer a tocar com o Blake Mills quando o foi ver, ainda em Paris. É uma história do caraças que depois ele conta!
3. Ocaso Épico
Muito Obrigado (1988)
Estavam o Nuno e o Diogo a navegar nas profundezas da internet em busca de tesouros quando de súbito aparece nos recomendados esta maravilhosa capa com o cómico título Muito Obrigado. Carregam curiosos no thumbnail e eis que são presenteados com o êxtase de terem encontrado algo único, desafiante e em português. Não percebemos muito bem como é que este disco não é uma referência da música portuguesa. Muito pouca gente sabe que isto existe e é uma autêntica relíquia. Viva o Farinha Master!
4. Jorge Ben Jor
Tábua de Esmeralda (1974)
Se ouvíssemos isto em vinil, já estaria mais que riscado. Um disco impregnado de vida, de alegria, de amor e muita muuuuuita, infinita musicalidade. A canção “Errare humanum est” é provavelmente perfeita, e este disco consegue de todas as vezes pôr-nos com um sorriso na cara.
5. Frank Zappa
Apostrophe (') (1974)
Dificilmente se encontra um início de disco tão certeiro como neste Apostrophe. Os primeiros quatro temas são absolutamente icónicos e são a base de muito daquilo que depois se tornou esta banda chamada Anseife Sepeice Gueardene. No geral o Zappa, no momento em que entrou por nós adentro, mostrou-nos que a música pode ser comédia e teatro e que deve ser sempre desafiada e questionada, e que as linhas que separam géneros musicais são absolutamente inventadas.
6. King Gizzard & the Lizard Wizard
I’m in Your Mind (2014)
Ouvimos isto tantas vezes de fio a pavio em viagens infinitas no nosso antigo Fiat Punto de 2005… Era como aumentar a voltagem da vida. Metíamos isto e tudo era possível. O carro ganhava asas. Uma vez chegámos aos 180 e só pode ter sido por causa da música porque aquele carro sozinho não era capaz. Atenção, por norma conduzimos sempre numa velocidade segura, portanto, quem ouvir este disco no carro: atentem!
7. Andy Shauf
The Party (2016)
Dos discos mais belos e sinceros que já ouvimos. Está tudo tão bem feito, mas não duma forma que chateia, antes duma forma em que as estrelas se alinharam e aquilo que é a gravação e a parte técnica de se fazer um disco complementam perfeitamente aquilo que são as canções, a narrativa, a intimidade da voz. É um disco tão corajoso pela vulnerabilidade que demonstra que se torna automaticamente uma preciosidade.
8. Tame Impala
Innerspeaker (2010)
Isto é um print do nosso ano de 2015. Quando a Alexandra pensa em baterias, recorre muitas vezes a ideias daqui. É uma referência mais a nível nostálgico porque acompanhou o começo da amizade que subjaz esta banda, e que nos remete sempre para a altura em que ainda não fazíamos música, e portanto relembra do entusiasmo e curiosidade e liberdade de quando se começa a fazer.
9. of Montreal
Hissing Fauna, Are You The Destroyer? (2007)
Depois de ouvir muito o When The Pawn e de ter percebido que o produtor era um senhor chamado Jon Brion, lá descobrimos o Amoeba dele em que ele fala num tal de Kevin Barnes, diz que é um génio, que tem um projecto chamado of Montreal e que o disco Hissing Fauna, Are You The Destroyer? é genial também. Fomos ouvir e abriu-se um novo mundo para nós. Se o Zappa abriu o jogo, este disco deu-nos as peças.
10. Chris Weisman
Everybody's Old (2018)
Recomendado pelo nosso Filipe, este disco tornou-se uma pérola nos nossos corações. O Chris Weisman é uma carta fora do baralho, uma máquina de fazer canções DIY duma riqueza francamente invejável. Há qualquer coisa que ele sabe que nós também gostaríamos de saber. O melhor mesmo é ouvir este disco (e se calhar os outros 62 – e são mesmo 62).
11. José Mário Branco
Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades (1971)
“Milionário que voltaste/ dois tostões para os que atraiçoaste/ yeeee / ye ye ye ye” é um refrão que nos ecoa nas profundezas da mente algumas vezes por dia. Há uma força no Zé Mário que fala connosco e que está muito presente em tudo o que fazemos. É um disco que não cede nunca, não abana sequer, sabe exatamente para o que vai e vai com tanta convicção que se torna incontestável.
12. Stevie Wonder
Songs In The Key of Life (1976)
Este disco é uma fonte de generosidade. Seja pela quantidade de músicas, seja pela entrega, seja pela riqueza incansável de harmonias, melodias e ritmos, seja pelo som das coisas, a felicidade que esborda por todo o lado… É impossível não amar a vida depois de ouvir isto. É impossível não ter esperança. Estas músicas são um feito e temos muita sorte por elas existirem e por podermos ouvi-las. E, portanto, honramos e ouvimos pelo menos uma vez por semana, dose que deveria ser recomendada por médicos por todo o mundo.










