Courtney Barnett – Creature of Habit (2026)

Francisco Pereira

Crítica a 'Creature of Habit', o 4.º álbum de Courtney Barnett, um disco sobre mudanças, hábitos e o indie rock honesto.

Aos 38 anos, a australiana Courtney Barnett parece ter chegado à conclusão de que não há nada de errado em ser, como diz o título do seu quarto álbum de estúdio, uma “criatura de hábitos”. Lançado no passado mês de março, Creature of Habit surge num momento de grandes mudanças para Barnett: uma mudança de Melbourne para Los Angeles, o fecho da sua editora (Milk! Records) e uma temporada de reflexão no deserto de Joshua Tree. O resultado de tudo isto é um disco que aprofunda a capacidade única da artista de transformar o quotidiano e a dúvida existencial em canções que parecem conversas honestas entre amigos de longa data.

Custa um pouco a crer mas Barnett lançou o seu ótimo primeiro álbum, Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit , há já 11 anos. E na altura destacava-se pelo estilo “beatnik” e pelas letras rápidas e cheias de trocadilhos. Agora, em Creature of Habit, com outra maturidade, ela abraça uma sonoridade mais despida e contemplativa. O álbum afasta-se da produção polida para se focar numa instrumentação “pé no chão”, com estruturas simples de dois acordes que, nas mãos de Barnett, ganham um peso emocional surpreendente. Este é um trabalho onde se sente o toque leve, mesmo quando as guitarras sobem de volume, como acontece na abertura mais imponente de “Stay in Your Lane”, um punk de garagem que lida com a ansiedade de tentar sair da nossa zona de conforto e falhar.

A temática deste novo disco gira em torno da autossabotagem, da indecisão e da procura por conforto nas rotinas. Em “Sugar Plum”, uma das letras mais fortes do álbum, Barnett admite a dificuldade em quebrar hábitos confortáveis, enquanto em “Site Unseen” — que conta com a participação preciosa de Waxahatchee — explora a incerteza de uma mudança de vida para o outro lado do mundo. Há uma tensão constante entre o desejo de mudar e a segurança de “ficar na sua”, tudo isto embrulhado numa sonoridade que pisca o olho ao rock alternativo dos anos 90, com solos de guitarra que lembram, de certa maneira, o estilo de Kurt Cobain: dissonantes, económicos mas cheios de alma.

Produzido por John Congleton, Creature of Habit deixa uma sensação de paz interior, culminando na sideral “Another Beautiful Day”, que se desvanece como um sonho ao acordar. É a prova de que Courtney Barnett não precisa de artifícios intelectuais complexos para comunicar diretamente com o ouvinte; a sua força reside precisamente na simplicidade e na coragem de admitir que, tal como todos nós, ela ainda está a tentar perceber como tudo funciona.

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