Entrevista | Birds Are Indie: “Mais do que repetir, a ideia era entrar em diálogo com o disco anterior”.

Vasco Reis

Os Birds Are Indie lançaram recentemente o seu sétimo álbum de estúdio, The Stone of Madness, um disco que prolonga o universo sonoro do antecessor sem cair na repetição. Ricardo Jerónimo, vocalista e multi-instrumentista da banda, fala sobre o processo criativo de um trabalho marcado pela introspeção e pela forma como a criação artística ajuda a compreender a loucura interior.

Dizem que este álbum é uma espécie de gémeo do álbum anterior. Como é que abordaram essa ideia sem cair na repetição da mesma fórmula?

A ideia foi-se construindo. Não havia um masterplanning inicial para este álbum ser isso em relação ao primeiro, mas foi-nos fazendo sentido que assim fosse. Por um lado, nós queríamos manter algumas coisas e dar continuidade ao que tínhamos feito no Ones & Zeros, mas também não nos queríamos repetir e encontrámos uma série de caminhos nas letras, na música, nos vídeos e na imagem. Mais do que repetir, a ideia era entrar em diálogo com o disco anterior. Esse diálogo começou a ser feito numa lógica de complementaridade, do que este disco podia trazer ao outro, que o outro não tinha. E, em contraponto, o outro parecia ter encontrado um irmão que não conhecia, três anos depois.

Sendo este um disco mais introspetivo, como é que funciona o vosso processo criativo a três?

Acho que a parte mais introspetiva reflete-se sobretudo nas letras e, como isso é o meu departamento, acaba por estar mais fechado em mim. Eu mostro-lhes sempre as letras e recebo algum feedback, mas 90 e muitos por cento é da minha parte. Portanto, a esse nível, sou eu que acabo por determinar o conteúdo lírico dos discos. Mas depois tudo o resto é feito em conjunto e em colaboração, e isso manteve-se neste disco. Houve partes de algumas músicas que escrevemos e compusemos na sala de ensaios, onde estávamos todos ao mesmo tempo a criar música. Houve outras coisas que fizemos no estúdio de gravação, com drum machines e sintetizadores, em que também estávamos em conjunto a dar ideias e a perceber o que funcionava e o que não funcionava. É um processo fechado, num núcleo criativo que somos nós.

Houve algo neste álbum a nível de composição, gravação ou produção, que fizeram pela primeira vez?

Em termos de gravação e composição, uma coisa nova que fizemos foi gravar tudo no estúdio caseiro do Henrique Toscano. Já lá tínhamos feito algumas coisas, mas nunca um disco inteiro. Foi uma boa forma de trabalhar, porque havia uma descontração muito grande, pois estávamos em casa dele, mas com todas as condições técnicas para o que queríamos fazer. Isso permitiu-nos também experimentar mais coisas e não estarmos dependentes de alguém. Foi um processo diferente estarmos a gravar e, às vezes, a compor e a fazer arranjos no estúdio ao mesmo tempo que gravávamos.

Lançaram dois singles “Not Today” e o “I Could Laugh”, porquê a escolha destas duas canções como singles?

Para nós é sempre um bocadinho difícil escolher singles, ainda para mais quando pensamos no disco como um todo. É sempre um bocado ingrato estar a escolher dois ou três filhos prediletos. Uma coisa foi consciente: queríamos que o primeiro single fosse uma música que tivesse como base drum machines que usámos no outro disco e agora neste precisamente para marcar essa faceta e vincá-la um pouco mais. E depois, por contraponto, quisemos que o segundo single fosse uma música rock, forte e vigorosa, e achámos que “I Could Laugh” cumpria esse propósito. O terceiro single será, se calhar, um equilíbrio entre estes dois polos.

“Not Today” fala de repetição e de algo que está sempre prestes a acontecer, mas nunca acontece. Sentiram essa frustração durante a criação do disco? Houve alguma canção particularmente difícil de concretizar?

“I Could Laugh”, por exemplo, foi uma música em que a Joana e o Toscano não gostavam de qualquer coisa na fase inicial, mas não conseguiam bem explicar o que era. Essa música foi um processo quase de escultura, de ir lapidando as coisas, em boa parte por redução, e teve esse lado que não foi frustrante, mas foi um bocado desafiante e ainda bem que foi, porque acho que o resultado final ficou melhor do que estava no início. “No More Alibis” também foi uma música em que estivemos perto do fim sem saber o que fazer com ela. Surgiu com a caixa de ritmos, com um groove e linhas de guitarra e baixo, mas não tínhamos estrutura. Era um groove de quinze minutos que tivemos depois de “cortar e coser” no estúdio. Foi um processo que não costumamos ter.

O título do álbum, The Stone of Madness, é inspirado num quadro de Bosch que retrata a extração da pedra da loucura. De que forma este álbum vos ajudou a lidar com a “loucura” da realidade em que vivemos?

Não sei se ajudou a lidar com, mas é uma forma de lidar com. Acho que criar artisticamente é uma forma de lidar com o mundo exterior e interior. Temos um lado em que, se não estivermos a criar, se estivermos apenas, de forma matemática, a produzir existência, isso não nos é suficiente. Há sempre uma necessidade de criar coisas; é terapêutico. Também, se não fosse bom, dezasseis anos depois já tínhamos aprendido a lição. Este disco é um bocado olhar para dentro: como é que eu consigo compreender a loucura que está cá dentro, uma vez que não consigo resolver a que está lá fora? A loucura representada na pintura de Bosch não é a mesma ao longo dos séculos e, neste disco, não é colocada como doença mental, mas mais como uma forma de lidar mentalmente com as questões e isto de ser um indivíduo neste mundo enlouquecido.

Os vossos videoclipes refletem bastante os temas do álbum. Quando criam as canções, já imaginam o lado visual ou isso surge apenas depois?

Os videoclipes neste disco, como no anterior, surgiram um bocadinho depois das músicas, mas não assim tão depois. Já foram pensados em função da música e do álbum. No caso destes videoclipes, não são vídeos que representam diretamente cada música. Quisemos que, nos três vídeos e nas subdivisões de cada um, estivesse presente o universo inteiro do disco. Claro que estão editados de uma forma que liga bem com a música, mas não há uma narrativa fechada em função de uma letra ou canção. É algo mais abstrato, mais ligado a um estado de espírito, com uma forma surreal e intrigante que acaba por refletir um pouco a atmosfera de Bosch. Ou seja, foi feito depois, mas muito ligado ao conceito do álbum.

Este ano fazem 16 anos de banda e, Ricardo, falaste desta fase como uma espécie de adolescência. Como imaginam os Birds Are Indie na sua fase “adulta”?

Era bom que as pessoas, quando são crianças, soubessem como vão ser quando forem adolescentes, e que, quando são adolescentes, soubessem como vão ser quando forem adultas, só que isso não acontece. Connosco tem sido um processo muito natural de maturidade e crescimento. Apesar de controlarmos muita coisa, foi sempre um caminho orgânico. Vamos ver se, no próximo disco, quando tivermos dezoito, dezanove ou vinte anos, damos continuidade a isto ou se fazemos algumas mudanças mais “adultas”. É uma incógnita e também estou curioso.

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