Depois de passarem vários anos à procura do som lustroso dos grandes palcos, os The Black Keys parecem ter reencontrado a sua alma no lugar onde tudo começou, ou seja, numa garagem cheia de amplificadores no máximo e discos de blues obscuros. Peaches!, lançado este mês, é o sucessor espiritual de Delta Kream (2021), mas com uma relevância e uma distorção que não ouvíamos na banda de Dan Auerbach e Patrick Carney há bastante tempo.
O álbum nasceu de um gesto de amizade, numa altura em que o pai de Auerbach estava gravemente doente. Carney reuniu a banda no estúdio em Nashville para descomprimir e aliviar a tensão, o que acabou por resultar num registo gravado quase totalmente ao vivo e sem grandes artifícios.
O disco foca-se em reinterpretações de pérolas raras do blues e da soul, trazendo de volta a sujidade e o ritmo hipnótico do Mississippi que os tornou famosos no início dos anos 2000. Embora contem agora com uma banda completa e até uma secção de metais, a essência é puro garage-punk. O destaque vai inevitavelmente para as duas covers de Junior Kimbrough, especialmente o encerramento com “Nobody but You Baby”, uma jam de sete minutos onde as guitarras de Auerbach, Kenny Brown e Jimbo Mathus se entrelaçam num transe psicadélico.
A energia de Peaches! é implacável. A versão de “You Got to Lose” (de Ike Turner) é tocada com uma vivacidade quase maníaca, fazendo a versão clássica de George Thorogood parecer… contida. Mas há também espaço para surpresas, como a versão de “She Does It Right” dos Dr. Feelgood, que aqui é desacelerada até ganhar uma personalidade nova e, diga-se, bastante sedutora. É um álbum que não tem momentos mortos. Move-se com a força de uma locomotiva a vapor, impulsionada pela bateria de Patrick Carney.
Os Black Keys passaram, nos últimos anos, por vários períodos conturbados e de grandes provas. Peaches! soa como um certo renascer necessário. Depois de vários álbuns focados no sucesso comercial, a banda prova que continua a ser uma das melhores a escavar diamantes no lixo e a dar-lhes um brilho elétrico. Pode ser que a dupla regresse às águas mais seguras da pop no futuro, mas este disco é a prova de que o coração deles ainda bate ao ritmo do blues mais sujo e honesto.











