“Pressure”: a história do homem que adiou o Dia D

Eduardo Marino

Se alguém apresentasse esta história numa reunião de argumentos, provavelmente seria acusado de exagerar. O destino da maior operação militar da História dependente de um grupo de meteorologistas fechados numa sala a discutir frentes atmosféricas? Aconteceu mesmo. E Pressure tem inteligência suficiente para perceber que não precisa de inventar nada.

Há uma frase atribuída a Dwight Eisenhower que paira sobre todo o filme. Anos depois da guerra, questionado sobre o segredo do sucesso do Dia D, terá respondido: “Tínhamos melhores meteorologistas do que os alemães.” Parece uma piada. Não é. E Pressure passa quase duas horas a demonstrar porquê.

Baseado na peça homónima escrita por David Haig em 2014 e posteriormente adaptada ao cinema pelo próprio autor juntamente com o realizador Anthony Maras (Hotel Mumbai), o filme acompanha as 72 horas que antecederam a maior invasão anfíbia da história. O palco é uma mansão inglesa transformada em quartel-general aliado. O inimigo não são os nazis. É o tempo.

No centro da história está James Stagg, meteorologista escocês interpretado por um extraordinário Andrew Scott. A sua missão parece simples: prever o estado do mar e do céu. O problema é que estamos em 1944. Não existem satélites, modelos computacionais ou aplicações meteorológicas. Há apenas mapas, observações dispersas e uma enorme capacidade para lidar com a incerteza. Um erro pode custar dezenas de milhares de vidas.

A premissa é tão absurda que parece ficção. O destino da Europa dependente de um homem a olhar para nuvens. Mas foi exatamente isso que aconteceu. Quando outros especialistas defendem que o ataque deve avançar conforme planeado, Stagg insiste que uma tempestade está a aproximar-se. Convence Eisenhower a adiar a invasão e depois identifica uma curta janela de melhoria atmosférica para 6 de junho. A decisão revelou-se decisiva.

O filme funciona porque percebe que isto não é uma história sobre meteorologia. É uma história sobre responsabilidade. Sobre o peso quase insuportável de tomar uma decisão quando ninguém pode garantir que está certo.

Andrew Scott carrega grande parte dessa tensão. O ator tem uma capacidade rara para tornar fascinante um homem aparentemente reservado. O seu Stagg não é um herói de guerra tradicional. É um cientista cansado, teimoso e pouco dado a discursos inspiradores. Quanto mais pressão recebe, mais se fecha sobre si próprio.

Ao seu lado, Brendan Fraser oferece um Eisenhower diferente do habitual. Menos mito, mais ser humano. Um homem obrigado a decidir se envia milhares de jovens para a morte com base numa previsão que pode estar errada. Kerry Condon, como Kay Summersby, e Chris Messina, como o meteorologista americano Irving Krick, ajudam a criar um ambiente onde a ciência, o ego e a política colidem constantemente.

Maras mantém a tensão quase sempre dentro de salas de reuniões, telefones e mapas meteorológicos. Não parece material para um thriller, mas resulta surpreendentemente bem. Talvez porque sabemos desde o início que as consequências são gigantescas. Talvez porque o filme nunca tenta transformar os seus protagonistas em super-heróis.

As imagens de arquivo integradas na narrativa ajudam a lembrar que tudo isto aconteceu realmente. E que, por trás das fotografias históricas e dos livros escolares, existiram pessoas obrigadas a decidir sem garantias.

Pressure junta-se a uma tradição recente de filmes fascinados pelos heróis discretos da História. Tal como The Imitation Game olhava para os matemáticos que ajudaram a vencer a guerra, aqui o foco recai sobre um meteorologista que quase ninguém conhece. E quando o filme termina, é difícil não pensar que talvez a História tenha sido escrita tantas vezes por pessoas em salas fechadas quanto por soldados no campo de batalha.

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