Mucho Flow anuncia primeiros nomes para edição de 2025.

Francisco Pereira

Cinco estreias em Portugal e sete álbuns novos para ouvir, nas primeiras confirmações do cartaz do Mucho Flow 2025, agora anunciados.

O Mucho Flow está de volta a Guimarães de 30 de Outubro a 1 de Novembro. A dar sabor aos early birds, que já estão à venda, o Mucho Flow deste ano faz-se da art pop de These New Puritans, do MMA musical de Infinity Knives + Brian Ennals e de Body Meat, da pop performativa de PLUS44KALIGULA, da canção eletrónica erudita de Maria Somerville, do brit sound contemporâneo de Tracey, do anti-rock de YHWH Nailgun, e da bass music frenética dos sets da NOIA.

O mote este ano é um que todos carregamos: inquietação. O que não fica estático, o que muda, o efeito borboleta das nossas expressões. Pequenas expressões de um presente verbal que molda a maneira como nos relacionamos em devir.

Qualquer bom corte de carne melhora com a maturação. A regra não é diferente com o produtor e compositor de Philadelphia Chris Taylor, cujas doses musicais que serve enquanto Body Meat vêm generosamente temperadas com uma masala de referências arrojadamente misturadas: pop de influência R&B, indubitavelmente, mas onde se ouve trap, clubbing e expressões mais extremas, do metal ao noise. Tudo isto, desenvolvido ao longo de mais de meia década, está maravilhosamente servido no disco de estreia, “Starchris”, uma afirmação auto-referencial de qualidade indelével e onde a sua arte está magistralmente exposta. Uma amostra maravilhosa de tudo o que irá ser o concerto em Guimarães.

A dupla Infinity Knives + Brian Ennals é tão ilustrativa das circunstâncias de Baltimore como do percurso singular das duas peças que formam o duo. Infinity Knives é o acumular de várias diásporas, com a migração da Tanzania para os Estados Unidos via Quénia, África do Sul e Madagáscar, a encapsular uma variedade de mundos que convergem na linguagem de Brian Ennals, rapper veterano do estado de Maryland. A colaborarem desde 2022, depois de uma primeira experiência no álbum de estreia de Infinity Knives, o terceiro disco da dupla ouve verborreias politicamente carregadas e bem dirigidas de Ennals a ser empurrada por uma avalanche de referências sonoras que vai da eletrónica de várias latitudes (do juke ao hip hop, com passagens por todas as ondas de synths e variações; do metal ao folk) com um resultado tão avassalador como embevecido. Preparem as ideias, porque os corações não vão aguentar.

Já com alguma veterania na cena ambient e drone, Maria Somerville chega ao universo pop da 4AD com um percurso de paisagismo sonoro invejável: através da manipulação de instrumentos muito associados ao folk, acústicos, cheios de reverberação, a irlandesa não se coibe de exacerbar as suas características para criar motivos fantasmagóricos que combinam particularmente bem com o formato de canção e balada que facilmente se torna num loop habitável. “Luster”, o seu novo álbum, é um conjunto destes fenómenos, em que andamentos rock e arranjos folk criaram um conjunto de canções comoventes, em que a voz espectral de Somerville nos dá o pedaço de shoegaze que qualquer noite digna de memória pede. Não queremos, com isto, dizer que será este único momento inesquecível do Mucho Flow, mas estamos dispostos a apostar que haverá Maria Somerville nas vossas playlists de 2026 em diante.

A mais graduada da classe de XXIII, NOIA tem-se afirmado como a porta-estandarte da sua geração de agitadores de pista de dança no Porto. Promotora-feita-DJ-volta-promotora, NOIA conquistou o seu espaço por via da incineração, pegando fogo por onde passava com uma mistura de bass music do juke ao jungle que abre portas e deixa escancarada para quem vem de seguida. Qualquer dúvida se dissipa no seu Club Noia, a sua noite de residência em que escolhe clinicamente com quem partilha decks e mixers e onde a regra é muito simples: o chão é lava, não se pode estar de pés grudados. Lembrem-se disso durante o seu set no Mucho Flow.

PLUS44KALIGULA, o projeto da britânica Cally Statham, surge como o que pode ser uma reflexão crítica sobre a condição humana, feita por meio de metodologias tão esquecidas que parecem novas — não muito diferente do que vemos acontecer com inteligências artificiais e naturais. As suas produções, saturadas, dramáticas e poderosas, desafiadas por uma contenção muito clinicamente utilizada, permite à cantautora mostrar a sua dinâmica vocal, saltando entre o épico e o calma da pop com muita mestria. Mais importante, PLUS44KALIGULA usa as suas composições como ponto de partida para resgatar a arte isolada da música da performance, criando peças ao vivo, e rodeando de desenhos de palco elaborados, para criar peças de impacto sónico e visual igualmente impactantes. Numa altura em que parece que nos esquecemos do que somos e nos permitimos a substituições de qualidade dúbia, “Statham” surge como uma espécie de mensageira entre o natural e o artificial com o objetivo claro de não apaziguar nenhum dos lados.

Longe de serem uma novidade, é com uma que os These New Puritans regressam a terras nacionais: um disco novo, o primeiro em seis anos, onde o seu art pop é repensado, reprocessado e atualizado com uma contemporaneidade que trouxe aos gémeos Barnett uma renovada juventude. Cheios de sangue novo, talvez absorvido por osmose do contacto com os convidados com que se rodearam para o novo “Crooked Wings” (Caroline Polachek entre eles), os britânicos acrescentam ao seu cancioneiro um novo belo conjunto de canções, todas particularmente bem engendradas: melodias sonantes, progressões familiares sem serem óbvias e uma incólume interpretação vocal de Jack Barnett, que de voz barítono bem colocada consegue elevar-se a instrumentais erigidos em camadas. Há algo de épico em todo o novo álbum, e não é simplesmente por se tratar de um regresso.

Particularmente londrina, o som de Tracey é tão amplo quanto a identidade do Mucho Flow — o que faz da estreia da britânica em Portugal via Guimarães tão inevitável e óbvio quanto natural. Seguindo uma escola de proto e pós vaporwave, a sua música vai do lofi pop de tendências ambientais e teatrais às realidades mais hiper texturizadas, onde se ouvem malhões que têm tanto de ganchos para rádio quanto de underground e lodo grime. Há na cantautora espaço e flexibilidade para nos embalar com uma guitarra acústica para depois nos puxar o chão com torrentes de sub graves e batidas clínicas. O denominador comum será sempre a sua voz, bela, alta, possante e impositiva.

Há um difícil jogo de cores que se consegue engendrar quando se procura cromatismo além do estilo. Numa amálgama como a dos norte-americanos YHWH Nailgun, é possível ter-se instrumentações vibrantes e coloridas a pintar negrumes impactantes. Isto é, instrumentos e texturas normalmente utilizados na pop, como sintetizadores berrantes e baterias muito quentes são deturpados e depurados ao ponto de estarem livres de cargas e de poderem coabitar com vozes quase em growl e progressões hardcore. Com total liberdade, o quarteto elabora um punk que joga ao nível do que o género espera: descargas virulentas e sem merdas. O encontro violento e sincopado entre corpos descreve tão bem as expectativas de um concerto de YHWH Nailgun quanto da música que criam.

Passes gerais early bird já disponíveis, em número limitado, na DICE.FM

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