Líquen é o organismo sonoro e poético de Constança Ochoa, artista natural de Coimbra que tem vindo a traçar um percurso fascinante na nova música portuguesa. O projeto, que nasceu da vontade da cantora em explorar a sua expressão individual após a experiência nos Peixinhos da Horta, funciona como uma simbiose perfeita entre a voz, a eletrónica e as raízes do cancioneiro popular. A sua música habita um espaço único onde o jazz e a pop alternativa se encontram em constante diálogo.
Após a afirmação com o EP de estreia I, em 2024, a artista viveu um ano de consagração em 2025 ao vencer o prestigiado Festival Termómetro. Este reconhecimento abriu-lhe as portas de palcos fundamentais como o NOS Alive e o Vodafone Paredes de Coura, onde a sua proposta estética, assente em polifonias vocais e contrastes íntimos, cativou o público. O projeto expandiu-se entretanto para uma dimensão coletiva em banda, mantendo porém a escrita confessional e a direção artística de Constança.
O ano de 2026 marca o caminho para o seu primeiro longa-duração, antecipado pelo lançamento do single “Aurora” em março.
Para o Mente Cultural, Líquen despiu as suas influências e selecionou 10 dos álbuns que definem a sua bússola criativa. Esta escolha reflete o ecletismo de uma artista que procura florescer e que revela as fundações de um álbum de estreia agendado para o último trimestre de 2026.
Constança Ochoa (Líquen):
“Explicar discos favoritos é uma tarefa árdua. Feliz ou infelizmente não cabem numa lista de 10, mas fiz o meu melhor para ser breve.
Grizzly Bear é um local de conforto e de devaneio, simultaneamente. O disco Yellow House, recomendado por um dos meus maiores amigos, acompanhou-me na maior viagem que já fiz, em 2016 – a primeira e única viagem que fiz sozinha, à Bolívia, num projecto de voluntariado. Falo de um lugar de privilégio: essa viagem marcou-me profundamente. Uma das imagens mais bonitas que guardo é de um pedaço dos Andes, pintados de branco no topo, acompanhados pela “Plans”, nos meus fones, no interior de um autocarro que fazia a viagem de La Paz até ao Lago Titicaca.
A Mayra Andrade é uma das cantoras que mais me inspira, desde a adolescência, e o disco Stória, Stória… circula no meu carro desde que conduzo (há 12 anos…?) e sem riscos, não sei bem como. “Dois selos e um carimbo” é um disco de pré-adolescência, um dos que me fez descobrir o gosto em cantar.
A Ana Bacalhau e o seu jeito de cantar provocativo, desafiador e incisivo, ensinou-me muito sobre o que a minha voz era capaz de fazer. Tinha um pequeno rádio no quarto onde ouvia muitos discos, e obviamente que os cantava,
bem alto, enquanto lia as letras no booklet.
Mais tarde veio o JP Simões, e o Boato, que acompanhou uma das minhas maiores paixões de jovem adulta e consequente desamor (quem nunca?), e me mostrou que escrever para cantar pode ser muito mais complexo e profundo do que eu imaginava.
O Clube da Esquina do Milton Nascimento e Vestida de Nit de Sílvia Perez Cruz só vieram confirmar isso mesmo, em dimensões completamente diferentes. Sempre gostei de discos expansivos, complexos, multi-instrumentais… Quando isso é conjugado com letras lindíssimas e carregadas de significado, é difícil não ficar
agarrada.
Mais recentemente, a Björk e o Vespertine (que só comecei a ouvir com a devida atenção há relativamente pouco tempo), que constroi e destroi (num bom sentido) os seus mundos musicais na mesma canção.
Para acabar, não posso não referir os discos que mais ouvi em 2025: Eye to the ear, de Cosmo Sheldrake, depois de ler um livro fabuloso sobre fungos e líquenes escrito pelo irmão, Merlin; o Dói-dói Proíbido” da Femme Falafel, outro que dificilmente largarei e, por fim, o disco do Quiné Teles, No sótão da velha. Este último, profundamente ligado à tradição oral portuguesa, inspira-me diariamente, em particular a música “Ó que estriga tenho na roca”, que me toca a um nível emocional e pessoal como mais nenhuma.”
* fotografia de Ana Carvalho dos Santos
1. Grizzly Bear
Yellow House (2006)
2. Mayra Andrade
Stória, stória... (2009)
3. Björk
Vespertine (2001)
4. Cosmo Sheldrake
Eye To The Ear (2024)
5. JP Simões
Boato (2009)
6. Deolinda
Dois Selos e Um Carimbo (2010)
7. Quiné Teles
No sótão da velha (2018)
8. Femme Falafel
Dói-dói Proibido (2025)
9. Milton Nascimento / Lô Borges
Clube da Esquina (1972)
10. Silvia Pérez Cruz
Vestida De Nit (2017)
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