Flea, Honora (Nonesuch Records)
Em Honora, Flea transcende o legado dos Red Hot Chili Peppers ao assumir-se como trompetista de jazz num registo ambicioso e que marca a sua estreia a solo. Com participações de Thom Yorke e Nick Cave, o disco brilha pela colaboração com figuras da cena de Los Angeles, como Jeff Parker. Encontramos reinterpretações de Funkadelic e influências de Ornette Coleman e o músico revela uma entrega honesta e coletiva que prova que a sua incursão pelo género é uma reinvenção autêntica e fundamentada.
José Gonzalez, Against The Dying Of The Light (Mute/City Slang)
José González regressa com Against The Dying Of The Light e com a sua característica delicadeza acústica. O sueco explora temas de finitude e esperança e mantém o dedilhado hipnótico, mas expande-se, neste sucessor de Local Valley, em texturas mais atmosféricas que evocam uma meditação sobre a luz e a escuridão. É um álbum de uma beleza austera e reconfortante.
Snail Mail, Ricochet (Matador Records)
Snail Mail traz-nos Ricochet, um trabalho que a consolida como uma voz fundamental do indie rock contemporâneo. O disco afasta-se do polimento de Valentine e abraça uma sonoridade mais crua e imediata. Ouvimos aqui guitarras distorcidas que sublinham letras confessionais sobre a resiliência emocional.
Beatriz Pessoa, Muito Mais (Cuca Monga)
Beatriz Pessoa estreia-se na Cuca Monga com o seu trabalho mais ambicioso, moldado pela maternidade e por uma nova confiança criativa. O sucessor de Prazer Prazer funde influências díspares — de Rita Lee a Caroline Polachek — num “caos positivo” de refrões dançantes e drama cómico-trágico. Reconciliada com as suas metas, Beatriz entrega um disco imprescindível, visual e colaborativo.
Carlão, Quinta-Essência 75/25
Em Quinta-Essência 75/25, Carlão celebra 50 anos com um balanço de vida que funde o ADN urbano com influências do hardcore e música afro. O álbum, lançado hoje, conta com a colaboração de João Nobre, Branko e Fred Ferreira, e marca a estreia do artista na composição. Através de temas como “Passo a Passo”, Carlão reflete sobre a ansiedade contemporânea e a relevância artística.
Courtney Barnett, Courtney Barnett (Mom + Pop)
Em Creature of Habit, Courtney Barnett explora a paralisia da indecisão e a busca por paz interior a partir de um refúgio em Joshua Tree. Com produção de John Congleton e a participação de Waxahatchee, o disco troca o garage rock droll por narrativas confessionais sobre sentir-se sem rumo. Barnett transforma a autocrítica e o tédio suburbano numa viagem sonora agridoce, e reafirma a sua expertise em extrair significado existencial da simplicidade.
The New Pornographers, The Former Site Of (Merge Records)
Os The New Pornographers celebram o seu 10.º álbum com uma viragem melancólica e introspectiva. O disco The Former Site Of afasta-se do power-pop efervescente, com A.C. Newman a assinar uma obra centrada no isolamento e na ansiedade social. O disco funciona como um estudo de personagens em colapso ao encontrar uma beleza desoladora na aceitação da impermanência e do fim.
King Tuff, Moo (MUP Records)
Em MOO, King Tuff (o projeto de Kyle Thomas) abandona os desvios sónicos recentes para regressar às raízes lo-fi e à sujidade do garage rock. O disco foi gravado em Vermont numa fita analógica Tascam 388 o que vai de encontro à vontade de se transformar num manifesto contra a “perfeição” digital, privilegiando a distorção e as imperfeições reais.
Holy Fuck, Event Beat (Satellite Stories)
Os Holy Fuck lançam Event Beat, um disco que ignora tendências e assume o experimentalismo puro. Seis anos após Deleter, a banda regressa com onze faixas que viajam entre o funk robótico de “Czar” e o “noise” hipnótico de “Aerosol”.
Manuel Fúria, Verde Veneno (FlorCaveira)
Manuel Fúria dá continuidade ao impulso eletrónico de Os Perdedores com o novo Verde Veneno, um disco que se afasta do pop-rock tradicional ao explorar fluxos de pensamento e narrativas declamadas. Com influências de Byung-Chul Han e do cinema de John Carpenter, o músico reflete sobre o mal-estar contemporâneo e a obsessão pela juventude através do “Manuel Fúria Som Sistema”.
Bela Nóia, A Bela Paranóia (tuff)
Em A Bela Paranoia, os viseenses Bela Noia quebram um silêncio de dois anos com uma obra conceptual que explora tensões interiores e densidade emocional. Editado pela Tuff, o disco expande a sonoridade da banda ao incluir um quarteto de cordas e a colaboração de Edgar Valente. O ciclo encerra-se com o single “À Guerra, Não Há Paz”, cuja narrativa visual culmina numa curta-metragem filmada em Viseu.
Monster Rally, Echoes Of The Emerald Sands (Flowering Jungle)
Monster Rally (Ted Feighan) transporta-nos para um paraíso tropical imaginário através do seu característico sampling exótico no seu novo disco Echoes Of The Emerald Sands. O álbum é uma colagem hipnótica de ritmos de lounge, percussões orgânicas e guitarras solares que evocam a estética retro-vibe da Polinésia. É um álbum supreendente e que mostra Feighan como um dos grandes nomes a seguir atualmente.
Tom Misch, Full Circle (AWAL Recordings)
Tom Misch apresenta Full Circle e afasta-se do lofi de quarto para abraçar a vivência orgânica de Nashville, gravando em fita com uma banda ao vivo. O disco explora a vulnerabilidade da vida adulta, desde a herança familiar em “Old Man” até à proximidade com as irmãs. Misch entrega aqui uma obra despida de artifícios.
Dälek, Brilliance Of A Falling Moon (Ipecac)
Os Dälek regressam com Brilliance Of A Falling Moon, um registo que funde hip-hop industrial com um ruído político imediato. Inspirado pela ascensão do fascismo descrita por Erik Larson, Will Brooks rima aos cinquenta anos com uma precisão técnica superior, confrontando crises migratórias e desigualdades sistémicas. O duo reafirma aqui o rap como a única forma elástica capaz de conter o colapso contemporâneo.
Fcukers, Ö (Ninja Tune)
No álbum de estreia Ö, os nova-iorquinos Fcukers transformam o “noise” do indie sleaze numa pop moderna e polida. O duo, que conquistou fãs como James Murphy e Billie Eilish, funde o electroclash com influências do house de Chicago e do trip-hop dos anos 90. A voz blasé de Shanny Wise evoca uma euforia madrugadora e contagiante.
Konradsen, Hunt, Gather (777 Music)
No seu novo trabalho Hunt, Gather, a dupla norueguesa Konradsen aprofunda a sua folk minimalista e fragmentada, onde o silêncio e o som ambiente são instrumentos vitais. Jenny Marie Sabel e Eirik Vildgren constroem uma narrativa sobre comunidade e sobrevivência, com paísagens da vida rural. É um disco de uma intimidade desarmante, que exige uma escuta atenta para revelar a beleza das suas composições orgânicas e eletrónicas.
Birds Are Indie, The Stone of Madness
Em The Stone of Madness, os Birds Are Indie deslocam o foco das fraturas sociais para os conflitos íntimos. O trio de Coimbra explora um território de tensão controlada e repetição, onde a eletrónica e a instrumentação orgânica servem uma narrativa de suspensão emocional. O sétimo álbum do grupo revela uma maturidade pop que navega na ambiguidade sem dramatismos excessivos.










