Edição: Outubro 2025
Antes de Cameron Crowe se tornar um nome indissociável de filmes como Say Anything, Jerry Maguire ou Almost Famous, já havia uma história improvável a ganhar forma no jornalismo musical americano. Em The Uncool: A Memoir, Crowe regressa aos anos em que, ainda adolescente, escrevia para a Rolling Stone, num tempo em que o rock e a crítica cultural pareciam centrais para compreender o mundo. O livro assume-se como um exercício de memória, mas também como um retrato íntimo de formação, marcado pela curiosidade, pela insegurança e por uma atenção quase obsessiva ao humano por trás do mito.
Crowe revisita encontros que hoje soam quase irreais: longas convivências com os Led Zeppelin, noites caóticas com os Lynyrd Skynyrd e um perturbador encontro nocturno com Gregg Allman, episódio que viria a inspirar Almost Famous. Mais do que o deslumbramento, interessa a Crowe a estranheza desses momentos, o desconforto e a percepção precoce de que a idolatria raramente sobrevive ao contacto próximo. A escrita é rica em detalhe e recusa o glamour fácil, preferindo expor a vulnerabilidade de quem está demasiado novo para aquele mundo, mas atento o suficiente para o compreender.
No fundo, The Uncool é um livro sobre ligações: uma entrevista que leva a outra, uma conversa que abre um caminho inesperado, até que essa cadeia de encontros se torna uma vida inteira dedicada a contar histórias. Sem nostalgia gratuita, Crowe deixa implícita uma reflexão sobre o esvaziamento actual do jornalismo cultural e reafirma o rock e a escrita como forças vitais. Ser “uncool” surge aqui como uma virtude — a distância necessária para observar, escutar e transformar experiências em narrativa duradoura.











