Durante décadas, Richard Linklater e Ethan Hawke construíram uma das colaborações mais consistentes do cinema americano. Começou com Before Sunrise, continuou com Before Sunset e Before Midnight, e passou ainda por projetos como Boyhood. Ao longo de quase trinta anos, foram afinando uma linguagem comum: tempo real, atenção aos detalhes, personagens que pensam enquanto falam.
Blue Moon nasce desse mesmo lugar. É um passion project antigo, desenvolvido intermitentemente durante anos, à espera do momento certo — e talvez da idade certa — para existir. Linklater sempre trabalhou bem com o tempo; aqui, volta a usá-lo como matéria dramática.
O filme centra-se na relação entre Richard Rodgers e Lorenz Hart, a dupla que escreveu algumas das canções mais reconhecíveis do século XX. Entre elas, Blue Moon, My Funny Valentine, The Lady Is a Tramp, Bewitched, Bothered and Bewildered e Manhattan. Canções que sobreviveram à parceria que as criou.
O foco não está no sucesso, mas na separação. No momento em que dois criadores deixam de conseguir habitar o mesmo espaço criativo. O filme observa esse processo sem pressa, interessado nas pausas, nas hesitações e no desconforto que antecede o fim.
Ethan Hawke, nomeado para o Óscar pela sua interpretação, evita transformar a personagem numa caricatura de génio atormentado. O que faz é mais simples: mostra alguém que começa a perceber que já não pertence ao lugar onde sempre esteve. É uma interpretação contida, construída a partir de pequenos gestos e silêncios. Desde a estreia em festivais, tem acumulado prémios e tornou-se o principal motivo para a distribuição internacional do filme — incluindo a estreia comercial em Portugal, que só avançou após a nomeação da Academia.
Há também uma ironia subtil no facto de Linklater, um realizador conhecido por acompanhar relações ao longo do tempo, fazer aqui um filme sobre o momento em que uma relação termina. Não há resolução grandiosa, nem catarse evidente. Apenas a sensação de que algo importante acabou, mesmo que a música continue.
No fim, Blue Moon funciona como um prolongamento natural da filmografia de Linklater e Hawke: observa, com calma, o que acontece quando duas pessoas que criaram algo duradouro deixam de conseguir continuar juntas.











