Com Forever Is a Feeling, o seu quarto álbum de estúdio, Lucy Dacus entrega um trabalho que desafia expectativas. Se antes ela equilibrava indie rock vigoroso com letras cortantes, agora opta por um som mais contido, quase contemplativo, mergulhando fundo nos meandros do amor adulto. O resultado é um disco que, embora menos imediatista que Home Video (2021), aprofunda a sua habilidade de transformar o quotidiano em poesia.
Dacus sempre foi uma contadora de histórias excepcional, capaz de extrair drama universal de detalhes aparentemente banais. Aqui, porém, ela troca as guitarras estridentes de “Night Shift” ou “Hot & Heavy” por arranjos minimalistas — violões delicados, sintetizadores etéreos, cordas discretas. A mudança é intencional: Forever Is a Feeling é um álbum sobre a quietude dos relacionamentos, sobre os silêncios que podem ser tanto confortáveis quanto sufocantes.
Em “Limerence”, um dos destaques do disco, Dacus canta sobre a atração por alguém que sabe ser errado: “I’m thinking about breaking your heart someday soon / And if I do, I’ll be breaking mine too”. A letra é devastadora, mas a produção — um piano melancólico e vocais quase sussurrados — reforça a tensão entre desejo e culpa. É um contraste com “Ankles”, outra faixa-chave, onde a cantora explora fantasias eróticas com uma entrega vocal mais carnal, acompanhada por um pulso rítmico que lembra batidas de coração.
O álbum conta com participações notáveis: Phoebe Bridgers em “Modigliani”, Julien Baker em “Most Wanted Man”, e até Hozier no curioso dueto “Bullseye”. Se Bridgers e Baker (esta última, confirmada como parceira romântica de Dacus) trazem uma cumplicidade quase invisível, Hozier soa um pouco deslocado — a sua voz grandiloquente quase ofusca a delicadeza de Dacus.
Há também ecos de Joni Mitchell aqui, especialmente na forma como Dacus expõe sua vida pessoal sem filtros. Se Blue (1971) chocou pela sua franqueza, Forever Is a Feeling opera num contexto onde a autoconfissão já é norma — mas Dacus eleva o género ao misturar o pessoal com o filosófico. Em “For Keeps”, ela questiona: “If the devil’s in the details and God is everything / Who’s to say that they are not one in the same?”, transformando uma canção sobre a rotina numa meditação existencial.
Forever Is a Feeling pode muito bem ser o trabalho mais maduro de Lucy Dacus até ao momento. Nele, a cantora troca o imediatismo por uma exploração mais lenta e introspectiva do amor — um risco que, como ela mesma admite em “Lost Time”, vale a pena correr.
Se Home Video era sobre a saudade da adolescência, este disco é sobre aprender a viver no presente, mesmo quando ele é feito de pequenos gestos e dúvidas. Não é um álbum perfeito, mas é honesto. E, no catálogo de Dacus, isso tem valido mais do que perfeição.