“The History of Concrete”: o peso invisível do betão e das coisas pequenas

Eduardo Marino

O IndieLisboa decidiu fechar a sua 23ª edição com chave de ouro. John Wilson apareceu em pessoa para apresentar The History of Concrete, transformando o final do festival num daqueles momentos improváveis que parecem saídos do próprio cinema dele.

Antes de mais, há algo quase irónico em terminar o IndieLisboa com um filme sobre… betão. Mas no caso de The History of Concrete, isso é só o ponto de partida para mais uma das espirais deliciosamente caóticas de John Wilson — agora já não em episódios de meia hora, mas num salto para a longa duração que não abdica do ADN que o tornou culto com a série da HBO How To with John Wilson.

Estreado em Sundance e ainda sem distribuição comercial nos EUA, o filme chega como uma espécie de “episódio impossível”: um ensaio documental expandido, onde Wilson continua a fingir que está a fazer um filme sobre um tema banal — aqui, a história do betão — enquanto, na verdade, está a filmar tudo menos isso.

A premissa nasce de uma tentativa de aplicar fórmulas de escrita de filmes de Natal da Hallmark a um documentário sobre um dos materiais mais omnipresentes do planeta. O resultado é uma deriva: o betão aparece, desaparece, volta como metáfora, e vai sendo substituído por tudo o resto — ansiedade, criatividade, falhanço, urbanismo, pessoas estranhas em Nova Iorque e a própria incapacidade de “fechar um projecto” .

O que mais impressiona aqui não é a “ideia”, mas a continuidade quase genética com a série. Quem conhece How To with John Wilson reconhece imediatamente o dispositivo: a narração em off neuroticamente precisa, o arquivo infinito de imagens de rua, a montagem que parece aleatória mas tem uma lógica emocional subterrânea. A diferença está na escala. Aqui tudo respira mais tempo — há menos gag rápido e mais contemplação involuntária. O humor continua seco, mas há mais peso. Ou talvez seja o próprio formato que obriga Wilson a esticar aquilo que antes era fragmento.

Haverá certamente uma divisão entre o entusiasmo por ver o dispositivo a crescer e o desconforto de o ver perder parte da sua agilidade original. Há quem fale de um filme “hilariante e inesperadamente comovente”, outros de um objecto brilhante mas irregular, onde a expansão nem sempre joga a favor da densidade. Ainda assim, há consenso num ponto: ninguém mais faria isto assim, e isso hoje já é quase um género próprio.

O filme ainda não tem data de estreia no circuito comercial português, mas haverá uma exibição extra a não perder no Cinema Ideal, em Lisboa, a 13 de Maio — uma dessas oportunidades raras de ver um objeto que ainda não se decidiu completamente como vai existir fora do festival. Nós já vimos, e aprovamos.

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