“The Mandalorian and Grogu”: algoritmo em ação non stop

Eduardo Marino

Duas horas depois, sobra pouco mais do que o barulho das naves e um ou outro meme de Grogu. Não é exatamente mau, mas apenas competente.

Há uma altura que percebemos que The Mandalorian and Grogu já não está propriamente interessado em contar uma história. O objetivo é outro: manter tudo em movimento. Entrar numa nave, sair de uma nave, disparar lasers, fugir de monstros, fazer uma piada, mostrar um planeta novo, avançar para a próxima missão. É quase como se Jon Favreau tivesse realizado um filme inteiro em modo autoplay.

Durante mais de duas horas, o novo capítulo galático da Disney funciona como uma sequência interminável de set pieces. Há perseguições, criaturas digitais, explosões e corredores metálicos suficientes para justificar o preço do bilhete. O problema é que nada parece ganhar peso. As cenas chegam, fazem o seu trabalho e evaporam-se cinco minutos depois. É entretenimento instantâneo, desenhado para consumo rápido e memória curta. Um blockbuster que já nasce preparado para virar conteúdo de fundo enquanto alguém faz scroll no telemóvel.

E talvez seja esse o lado mais estranho do filme: a ausência total de atrito. Não há complexidade, risco ou sequer espaço para silêncio. Tudo é explicado. Tudo é sublinhado. Mesmo quem nunca viu um episódio da série consegue acompanhar a narrativa sem esforço, porque o filme passa metade do tempo a explicar-se a si próprio. Há easter eggs para os fãs, claro, mas Favreau parece menos interessado em construir mistério do que em garantir que ninguém se perde a caminho da banca das pipocas.

O lado curioso é que esta simplicidade quase infantil acaba por funcionar melhor quando o filme abranda e deixa Grogu ocupar o centro emocional da história. Continua a ser uma marioneta com olhos gigantes, mas é a única presença que transmite alguma coisa parecida com emoção genuína. Sem ele, The Mandalorian and Grogu seria apenas uma compilação cara de missões secundárias.

À volta, o elenco parece preso num estranho limbo digital. Até Sigourney Weaver surge com ar cansado, como se tivesse aparecido num universo errado depois de sair de outra rodagem. Há qualquer coisa de melancólico em vê-la perdida entre ecrãs verdes e diálogos funcionais. A personagem existe sobretudo para dar instruções ao herói e empurrar a história para a próxima sequência de ação. Nos fóruns e críticas online, muita gente descreveu a sensação de estar a ver um videojogo cinematográfico, e é difícil discordar.

Jeremy Allen White tem o problema oposto: desaparece por completo atrás da voz processada de Rotta the Hutt. Tão processada que se torna quase irreconhecível. Há momentos em que parece um ator convidado para dobrar um GPS alienígena.

E depois há Martin Scorsese. Sim, Martin Scorsese aparece aqui a fazer voz de uma criatura alienígena num pequeno cameo. O mesmo realizador que há poucos anos dizia que os filmes da Marvel eram parques temáticos acaba agora perdido numa cantina digital de Star Wars. Talvez seja a punchline perfeita para Hollywood em 2026.

No fundo, The Mandalorian and Grogu confirma uma coisa: a Disney já percebeu que Star Wars funciona melhor como fluxo contínuo do que como acontecimento. O filme entretém. Às vezes até diverte. Mas termina exatamente da mesma forma que começou: sem deixar marca. Como uma playlist automática que toca enquanto fazemos outra coisa qualquer.

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