Entrevista | Soma Please: “A nossa escrita acaba por ser mais espontânea do que seria se estivéssemos num sítio com muito tempo disponível”.

Vasco Reis

A dupla luso-britânica Soma Please lançou na semana passada o seu EP de estreia “Ballet”, um disco feito entre viagens e conversas à distância. Nuno Bracourt e Rob Williamson falam-nos sobre o contraste por trás do nome do EP, o impacto de viverem entre países no processo criativo e a espontaneidade que acabou por definir estas canções.

O EP chama-se Ballet. De onde veio esse nome e o que representa para vocês?

Nuno: Gostámos esteticamente da palavra, mas acho que é sobretudo uma ideia dadaísta e de criar um contraste com o tipo de músicas que fazemos. Acho piada ter um nome como Ballet, com tudo o que isso implica, e depois as pessoas ouvirem o nosso EP e ficarem surpreendidas, porque não é nada muito clássico, é mais indie, mais sujo. Quisemos criar esse contraste.

Mencionaram que tiveram de aproveitar ao máximo o pouco tempo que tinham juntos para criar estas músicas. Se tivessem tido mais tempo, acham que poderia ter acabado por se tornar um álbum, ou o formato EP foi sempre o plano?

Rob: Acho que o EP foi sempre o plano. O facto de não conseguirmos passar tanto tempo juntos quanto gostaríamos acaba por ser bom, porque cria pressão, uma espécie de prazo sempre que estamos juntos. A ideia foi sempre fazer primeiro um EP. Decidimos terminá-lo e depois pensar num álbum no futuro.

Enquanto estavam a criar o EP, houve alguma música que sentiram imediatamente que tinha de abrir ou fechar o projeto?

Rob: Para mim, “Pockets on My Sleeves” foi a primeira música em que percebi: “isto tem de estar no EP”, talvez até a abrir. Era provavelmente a minha música favorita daquelas que tínhamos escrito até então, por isso pareceu-me o início perfeito para o EP.

Nuno: E foi também a primeira a ficar concluída. Já tínhamos todos os arranjos e a mistura final feitos. Fizemos a música muito depressa e ficámos superentusiasmados quando a terminámos, porque tudo nos parecia muito certo.

Estarem constantemente entre países parece ter um grande impacto no vosso processo criativo. Acham que este EP soaria diferente se estivessem fixos apenas num sítio?

Rob: É difícil dizer, mas acho que seria diferente, honestamente. O estado mental em que estamos quando andamos sempre entre países… culturas diferentes têm um impacto enorme em mim, pessoalmente, e isso acaba por influenciar a forma como a música é feita, como nos sentimos. Para mim, não seria igual.

Nuno: Concordo. E acho que é bom para nós não termos tanto tempo, porque antes íamos muito atrás de músicas mais fáceis de fazer. Agora temos uma ideia e tentamos terminá-la em um ou dois dias. Acho que a nossa escrita acaba por ser mais espontânea do que seria se estivéssemos num sítio com muito tempo disponível. Por isso, sim, acho que isso tem um papel muito importante nas nossas músicas.

Os vossos videoclipes, pelo menos dois deles, têm um conceito muito forte. Começam a pensar nesse conceito enquanto fazem a música ou isso surge depois das canções estarem terminadas?

Rob: Na maior parte das vezes, só penso no videoclipe depois da música estar terminada. Mas tenho a certeza de que já houve momentos em que estávamos a escrever uma música e pensámos: “isto dava um videoclipe incrível”. Mas, no geral, para mim, isso vem depois.

Nuno: Há vezes em que acabamos por fazer coisas em que eu tinha pensado e outras em que não. Mas acho que, ultimamente, tenho pensado mais em videoclipes quando temos uma música, o que antes nunca acontecia.

“I’m a Fan” fala sobre admiração, especialmente admiração por artistas. Como surgiu a ideia para essa música?

Nuno: Não sei bem de onde veio. Só me lembro de pensar que seria interessante brincar um bocadinho com a complexidade de como a admiração pode transformar-se em obsessão. Acho que andava a ouvir Talking Heads, e eles têm aquela energia nervosa, um certo stress na música deles. Acho que acabámos por encontrar uma boa ideia ao falar dessa linha entre admiração e obsessão.

Rob: Acho que o conceito nasceu no mesmo dia em que surgiu a ideia inicial da música. No dia em que a escrevemos, as letras já estavam mais ou menos lá. Foi tudo muito espontâneo. Tivemos uns dias em que não encontrávamos nada de que gostássemos muito e depois tropeçámos naquele riff de baixo e o Nuno apareceu com aquele refrão do “I’m a Fan”.

Nuno, achas que te expressas de maneira diferente quando escreves em inglês em vez de português?

Nuno: Sim, definitivamente. É muito diferente escrever em português e em inglês. Acho que é mais difícil escrever em português do que em inglês, na minha opinião. Apesar de ser a minha língua, de conhecer muito mais palavras em português e de falar muito melhor português, não sei… acho que a língua inglesa dá mais espaço às sílabas. E talvez, como o inglês não me diz tanto emocionalmente como o português, tenha menos preconceitos com as palavras e associe menos coisas a elas

Rob, do ponto de vista da produção, o que te surge de forma mais natural no processo criativo: trabalhar com elementos eletrónicos ou acústicos?

Rob: Quando comecei a produzir, era provavelmente mais virado para o eletrónico: sintetizadores, MIDI, esse tipo de coisas. Não tinha muitos microfones nem me focava muito em instrumentos acústicos ou em captação de som. Mas, à medida que fui amadurecendo, percebi que, para transmitir emoção, a melhor forma é através de instrumentos acústicos. Então percebi que precisava de melhorar nisso. Hoje em dia acho que está mais equilibrado, cinquenta-cinquenta. Gosto muito de fazer as duas coisas.

Trabalhar remotamente tantas vezes deve obrigar-vos a improvisar bastante. Qual foi a música do projeto que acabou por mudar mais inesperadamente durante o processo?

Nuno: Foram todas, de certa forma, mas provavelmente “Alone“. É uma música muito simples, não tem muitos instrumentos, mas acho que foi aquela em que passámos mais tempo a tentar perceber do que realmente precisava. Tivemos várias versões da música e depois acabámos por optar por uma abordagem mais acústica nos arranjos. Por isso, curiosamente, diria “Alone“.

Rob: Alone foi definitivamente uma das últimas músicas em que trabalhámos juntos, mas talvez tenha sido uma das primeiras em versão demo. Como ele disse, experimentámos várias coisas e até pensámos fazê-la totalmente acústica, mas acabámos por chegar ao resultado final. Ainda assim, acho que, nas músicas deste EP, as ideias principais e os refrões estavam lá desde o início e não mudaram assim tanto. Talvez “What’s the Score” tenha tido uma grande mudança na bridge, alterámos completamente essa parte, mas as outras três já estavam praticamente formadas.

Ainda não anunciaram concertos, mas há alguma faixa do EP que sintam que pode ganhar uma vida completamente diferente ao vivo?

Rob: Estou muito entusiasmado para tocar “I’m a Fan” ao vivo e acho que aquela bridge pode ganhar vida própria, porque é uma parte mais caótica e espontânea. Sinto que, ao vivo, vai ser um espaço interessante para experimentar mais e levá-la ainda mais longe. Mas, pessoalmente, estou entusiasmado para tocar todas as músicas ao vivo.

Disseram que o nome da banda foi inspirado por uma “droga da felicidade” chamada soma do livro “Admirável Mundo Novo” Se este EP fosse uma droga, que efeito gostariam que tivesse nas pessoas?

Rob: Acho que cada música tem emoções diferentes. Em “Love“, por exemplo, o refrão é eufórico. Há muita coisa a acontecer em cada canção, mas acho que a droga soma representa bem a nossa música, se fosse uma droga real, essa euforia e gratificação instantânea.

Nuno: Vou ser muito nerd agora. Conheces Naruto? Há uma coisa chamada Mangekyou Sharingan. Já não me lembro muito bem, mas acho que, com o Mangekyou Sharingan, podes viver num mundo perfeito. Faz com que as pessoas fiquem meio adormecidas, mas muito felizes, porque estão a sonhar nesse mundo perfeito. Acho que talvez seria isso

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